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O dinheiro sem carimbo e os partidos

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Deputado cassado e presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson é réu
no inquérito do mensalão. Responde pelos crimes de corrupção passiva e
lavagem de dinheiro. Policial Militar no Distrito Federal, João Dias está preso. Agrediu um
sargento que tentava contê-lo no Palácio do Buriti onde entrou com um
pacote de R$ 159 mil em espécie.

Jornalista e ex-assessor da campanha petista em 2010, Amaury Ribeiro
Jr. foi indiciado pela Polícia Federal por quatro crimes: violação de
sigilo fiscal, corrupção ativa, uso de documentos falsos e oferta de
vantagem a testemunha.

Com a denúncia de que o governo Luiz Inácio Lula da Silva pagava
mesada a sua base parlamentar, Jefferson provocou um dos escândalos
políticos de maior repercussão da história da República. Com a
acusação, da qual voltaria atrás na defesa apresentada por seus
advogados no Supremo, Jefferson pôs em risco o mandato de Lula e levou
40 réus a serem arrolados no Supremo Tribunal Federal.

Pela denúncia de que recursos públicos destinados a um programa de
formação de núcleos esportivos em escolas públicas estavam sendo
desviados para Ongs ligadas ao PCdoB, Dias precipitou a queda do
titular do Ministério dos Esportes, Orlando Silva, um ex-presidente da
UNE que estava no cargo havia cinco anos.

Tanto PSDB quanto PT mantiveram lavanderias em ação

Jefferson e Dias denunciaram esquemas ilícitos dos quais foram
participantes. A valoração, pela Justiça, de depoimentos de suspeitos
e até criminosos condenados, deu curso ao instituto da delação
premiada.

A suspeição que recaía sobre ambos não impediu que os depoimentos de
Jefferson e Dias, com ampla divulgação nos meios de comunicação,
tivessem desdobramentos políticos e jurídicos significativos.

É com base nesses precedentes que cresce, na internet, a indignação
com os escassos desdobramentos nos jornais e nos meios políticos das
denúncias publicadas pelo jornalista Amaury Ribeiro no livro “A
Privataria Tucana” (Geração Editorial, 344 páginas).

Contratado como elo da assessoria de comunicação da campanha petista e
o universo da arapongagem, o jornalista foi indiciado no inquérito que
apura a violação do sigilo fiscal de dirigentes tucanos e familiares
do ex-candidato à Presidência, José Serra.

O livro é uma compilação de documentos que sugerem lavagem de dinheiro
da privatização. O autor revela vínculos entre muitos dos personagens
que estiveram ligados à venda das estatais, às campanhas do PSDB e à
família de Serra, mas, apesar da farta documentação, não encontra
carimbo no dinheiro lavado. Talvez pela simples razão de que o
jornalismo não é dotado de meios policiais e jurídicos para
identificar o carimbo.

Muitos personagens dos governos do PSDB e do PT que enriqueceram às
custas de tráfico de influência e informação privilegiada passaram
incólumes pela imprensa porque embolsaram dinheiro lavado. Uma única
operação da Polícia Federal apurou que entre 1996 e 2002, no auge das
privatizações, evadiram-se U$ 30 milhões pelas chamadas contas CC5,
criadas pelo Real para liberalizar o fluxo de capitais.

Muito mais fácil do que identificar o carimbo nesse dinheiro é
descobrir e, com toda razão publicar, a história de um ministro que um
dia teve duplo emprego.

A indignação de internautas questiona por que os jornais que já
execraram a família de Lula não se ocupam em seguir as pistas dos
familiares de Serra que o livro revela.

Num tempo em que se derrubam ministros como quem preenche uma cartela
de bingo talvez esteja fora de moda lembrar que o jornalista pode
achar que apura como um promotor e julga como um magistrado, mas o
jornal não tem como abrigar plenamente o direito de defesa e, por
isso, não substitui a Justiça.

Isso não desmerece a reportagem. Muito pelo contrário. O valor do
jornalismo investigativo está em identificar os interesses em disputa
e revelá-los ao público. Propagar unicamente a munição que vem de um
dos lados é partidarismo.

O livro é menos partidário do que o uso que se faz – e não se faz –
dele. Depois de ter chegado às livrarias na última sexta-feira, teve
sua primeira edição esgotada em 48 horas. O espaço que lhe dedicam os
blogs é inversamente proporcional à centimetragem impressa. No fosso
entre uma e outra abordagem está a constatação de que face às chances
de se identificar o dinheiro carimbado, tanto tucanos quanto petistas
preferiram deixar as lavanderias funcionando.

Boa parte da documentação de que se vale o livro é originária da CPI
do Banestado, instalada no primeiro ano do governo Lula. Se houvesse
real interesse em pôr freio à lavagem, ali teria sido o momento.

O volume de informações fiscais, bancárias e telefônicas levantado por
aquela comissão foi mais do que suficiente para se fechar o ralo. Mas
o relator (José Mentor), petista, ocupou-se em tentar incriminar o ex-
diretor do BC, Gustavo Franco, pela liberação da remessa de recursos
para o exterior sem a identificação do remetente. Deparou-se com o
presidente da comissão (Antero Paes de Barros), tucano, disposto a
sugerir o indiciamento do então presidente do BC, Henrique Meirelles,
por ter se utilizado de uma conta de doleiros para transferir U$ 50
mil para o exterior. O resultado é que dois relatórios foram
apresentados e nenhum foi aprovado.

Nos documentos da CPI já se viam as digitais do Rural, o que não
impediu que o banco fosse o escolhido para a lavanderia do mensalão.
Visadas, as agências de publicidade pouco a pouco foram cedendo espaço
aos escritórios de advocacia na intermediação do dinheiro que a
política busca esquentar.

No projeto de lei sobre lavagem de dinheiro que tramita no Congresso,
a OAB faz pressão contra o artigo que obriga os advogados a revelar a
origem dos recursos com que seus clientes pagam os honorários
advocatícios. E encontra defensores de PT a PSDB.

Mesa de ontem no Casserole, centro de São Paulo, reunia o ex-diretor
do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira, um dos principais
personagens do livro, o ex-ministro da Casa Civil do governo Fernando
Henrique Cardoso, Clóvis Carvalho, e o advogado José Carlos Dias.
-- 
Sex, 16 de Dezembro de 2011 11:30
 

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