Um amigo urbanista que trabalha na prefeitura de São Paulo conta que na reurbanização de uma favela, o corrimão de ferro colocado numa escadaria, desapareceu em poucas horas. Foi vendido por algum morador. ‘- Não adianta só colocar o equipamento, é preciso um trabalho mais amplo de educação e cultura’, refletia ele. Apesar de público e a necessidade de grande parte da população mais velha daquela comunidade ter o corrimão, a sensação do público ‘ser de ninguém’ impera em toda as camadas sociais brasileiras, com pontuais exceções.
Neste início de gestão de todas as cidades brasileiras cada administração carrega seu estilo, fruto de ideologias, experiências e crenças.
Quando vemos as nossas metrópoles, como a cidade de São Paulo, com seus mais de onze milhões de habitantes, e pensamos numa gestão eficaz e democrática, é inimaginável um poder central que consiga atender a todos. Ilude-se quem pensa o contrário, que é melhor assim. O resultado disto é uma política pública excludente, norteada pela ideia de que a eleição é a delegação suprema do poder ao eleito.E ele saberá gestar e resolver todas as necessidades e problemas.
Neste tipo de crença ou se acredita que democracia é termos unicamente eleição livre e, isto basta, ou é má-fé, na qual se usa dois pesos e duas medidas: tudo para parte da população, que vive em área muito bem ornada com equipamentos públicos e o restante, que mora distante na periferia, fica com a sobra. Observar o orçamento da cidade referenda isto.
A história das últimas décadas na cidade de São Paulo, foi de luta da sociedade civil para realmente democratizar a cidade, isto é, todos cidadãos têm os mesmos direitos e deveres e querem ser ouvidos nas suas necessidades. Das administrações regionais passamos as trinta e uma subprefeituras, e na lei que a aprovou, foi garantida a participação da população, através dos conselhos de representantes e a descentralização, através do fortalecimento do poder local, isto acontecendo inclusive no orçamento.
Sem esquecermos do estratégico instrumento de planejamento que é o Plano Diretor que só tem validade, segundo o Estatuto da Cidade, se for construído através de um amplo processo de participação da sociedade.
Estamos assistindo na cidade de São Paulo é a contra-corrente da história: as subprefeituras cada vez mais sem orçamento e sem atuação em áreas fundamentais e específicas (saúde, educação e agora assistência social), sem a participação da população, até hoje não temos conselhos de representantes, e uma lei de revisão do Plano Diretor que está na Câmara Municipal, e não ouviu devidamente a população.
Quem está interessado nesta centralização na cidade?
Com certeza a uma ínfima parte dos cidadãos e grupos específicos. A grande maioria, em pleno século XXI, está convidada a assistir da arquibancada o banquete onde poucos se fartam.
Esta visão tacanha, inclusive faz uma cidade de pior qualidade: com mais violência de todas as ordens, com mais descaso e sem a ideia que o público é de todos.
No fundo quem furtou o corrimão, que apoiaria seus parentes mais velhos, espelha a cidade que hoje temos. Este cidadão não imagina que um dia ele precisará do corrimão, como todos precisaremos.
É a São Paulo do agora, do imediato, que não planeja seu futuro, não se solidariza com ele e age como se pudéssemos viver isolados do restante das pessoas.






