Escola de Governo

Desenvolvimento, Democracia Participativa, Direitos Humanos, Ética na Política, Valores Republicanos.

  • Aumentar tamanho da fonte
  • Tamanho da fonte padrão
  • Diminuir tamanho da fonte
Escola de Governo / Artigos / A diferença entre consumidor e cidadão

A diferença entre consumidor e cidadão

E-mail Imprimir

Primeira Parte (ficção quase real): “A vida de Esperança”

A vida de Maria Esperança era assim: acordava antes das cinco da manhã para preparar as marmitas dos dois filhos que trabalhavam de office-boy. Juntava suas coisas  e saía para o trabalho. Levava duas horas e meia no percurso entre sua casa simples em Marsilac(Parelheiros- região extremo sul de São Paulo) e a empresa na Av. Paulista. Era copeira num escritório de uma fábrica de software para sistemas de computação. Servia café e água o dia inteiro, além de esquentar os almoços de alguns funcionários com presteza e simpatia. Para complementar sua renda vendia umas trufas que uma vizinha doceira produzia. Trabalhava das 9 até 18hs. Ganhava um salário mínimo e meio mais uns cem reais na venda de trufas. Estudo praticamente não tinha. Foi migrante do Maranhão adolescente. Sabia escrever o nome e ler vagarosamente, e quando chegava ao fim da leitura de uma frase, já havia esquecido o que leu no começo. Tres das quatro operações aritiméticas sabia fazer de cabeça, dividir era mais difícil mas, era mestre em compartilhar. Compartilhava desde menina tudo, até sapato e escova de dente com seus treze irmãos.


Recebia ajuda governamental através do programa Bolsa Família. Nos últimos anos a vida melhorou. Aumento real do salário mínimo e fim da inflação ajudaram muito. A mistura já dava para ter em todas as refeições. Dava até para ir sempre de onibus em todos os trechos para o trabalho, com o Bilhete Único e se abusasse, podia ir até no baile dançar no fim de semana, pois a vida quis que ela ficasse viúva cedo, com apenas 31 anos. Seu esposo morreu num acidente de trabalho, por falta de um simples cabo de segurança. Mas, Esperança não parava na tristeza, só quando o onibus lesmava nos congestionamentos.

Saúde de ferro, só ficava ofendida pelos calores que subiam-lhe a cabeça. A doutora lhe disse que era assim mesmo: “- as regras íam cessar”. Esperança não entendeu o que isso significava, ficou com vergonha de perguntar para a doutora. Só entendeu quando a Agente de Saúde lhe explicou. Ria da história pois, imaginava que tudo ía ficar confuso, sem regra nenhuma. Não sabia que menstruação tinha esse nome... achava a maior graça. Depois, entendia que , de fato, as regras estavam loucas e enlouquecendo-a. Mas, na vida tudo passa. Até a sensação de fome, vai se transformando numa moleza, num desânimo, numa escuridão. Agora que os meninos estavam trabalhando a vida melhorou mais. O menor estava até no ensino médio. Pensava em estudar na faculdade. Queria estudar, tinha vocação para cuidar de gente. Pensava em ser médico. Destes bons de Emergência. Nas faculdades mais perto de casa ou não tinha o curso ou era muito caro. Pensou em fazer um curso técnico de enfermagem. Tinham todos celulares, páginas no orkut que acessavam ou na lan house ou na escola. Informação chegava a eles através das novelas ou Big Brother. Não liam jornais, revistas ou livros, mas, conseguiram até comprar aquele desejado tenis de marca em 18 vezes. No onibus, ouviam seus pagodes em seus mp3. Na vida, viviam a ambiguidade de alcançarem a tecnologia e aumentarem o consumo e terem dificuldades nas condições básicas, que todo político gosta de prometer na eleição: saúde, educação, transporte, habitação e alimentação de qualidade.

        Faziam parte da nova classe média: aumentaram muito seu consumo, comiam até requeijão. Ajudaram o país a não mergulhar na crise financeira internacional. Eram os novos consumidores que pularam da 'classe E' para a 'classe C'.

        Esperança num novo Brasil resplandecia.


Segunda parte: reflexão sobre o consumo e a cidadania

        O século XX já ficou para trás em dez anos . O Brasil vem se transformando. A mudança não foi pequena. Porém, saber qual foi a mudança que ocorreu, nestas duas últimas décadas, é fundamental para pensarmos a perspectiva de futuro das brasileiras e brasileiros e em qual caminho devemos trilhar.

           O Brasil viveu no período da ditadura militar (1964-1985), principalmente na década de setenta, a fase intitulada de 'milagre econômico', isto é, um período no qual os índices de crescimento eram espetaculares. Um poderoso ministro da Fazenda da época falava : ' - primeiro devemos fazer o bolo crescer, para depois dividí-lo'. Cresceu e nada se dividiu. Se somos penta campeões no futebol, somos eternos campeões mundiais( ou vice mais recentemente) em má distribuição de renda. Nas críticas feitas sobre este vexame anticidadania que protagonizamos, muito se criticou e não se pontuou que a 'divisão do bolo' é somente um primeiro passo.

           Após este período o Brasil construiu uma nova Constituição com a participação popular e vem experimentando um período mais democrático. Direitos civis e políticos muito mais garantidos e direitos econômicos e sociais ainda embaçados para a maioria. E uma minoria com qualidade de vida de países desenvolvidos, apesar do aprisionamento dos muros, das blindagens e dos seguranças correndo pateticamente atrás destes.

       Os dados de pesquisa recente são incontestáveis. Segundo a FGV-RJ, quase metade da população brasileira é de classe média, isto é, a 'classe C' já conta com 49,2%. Em termos absolutos são 91,8 milhões de brasileiros. Para a FGV, uma família é considerada de classe média (classe C) quando tem renda mensal entre R$ 1.064 e R$ 4.591. O sociólogo Rudá Ricci, (em aula na EG e também em artigo) tem apontado este fenômeno como “o mais importante sociologicamente nos últimos dez anos no Brasil”.

       O programa Bolsa Família e, principalmente, o aumento real do salário mínimo, após anos seguidos com inflação controlada, isto é, com a estabilização econômica, geraram um aumento do consumo inclusive de todas as classes, da 'A' até a 'E'. Calcula-se que 12 milhões de brasileiros tornaram-se consumidores, entendendo consumidor como aquele que tem acesso à bens e serviços que anteriormente nem podiam desejar. Viviam sob o manto da luta por conseguir fazer a próxima refeição, quase sempre sem 'mistura'. Este número que mudou de patamar é próximo a população do Equador.

      Temos 160 milhões de celulares e a tarifa mais alta do mundo, o automóvel deixou de ser um sonho para muitos (a cidade de São Paulo emplaca mais de 800 automóveis diariamente). Todo o arsenal tecnológico ficou mais perto dos brasileiros. Entramos num onibus urbano, nas grandes capitais, e vemos muitos falando em celular, outros ouvindo música em mp3, muitos com tenis e roupas de marca. O sonho foi alcançado para muitos, da entrada no 'incrível' mundo do consumo.

      Ao mesmo tempo, educação, saneamento, habitação, saúde, mobilidade urbana(transporte), isto é, uma vida com qualidade ainda está distante.

      Países em que a solidariedade social seja a bandeira que costura toda a sociedade, esta longe do nosso país do carnaval.

      As tentativas de estabelecer políticas públicas nestas áreas, através da privatização do Estado, vão na direção de colocar o cidadão como consumidor, isto é, gerenciar o Estado como se fosse uma empresa, é olhar de forma míope a cidadania.

      Luta-se em qualquer nível público da federação para que o Brasil cresça. Esta é a grande meta. Confunde-se facilmente crescimento com desenvolvimento. Falamos em países do primeiro mundo desenvolvidos, não em países crescidos. Admiramos o crescimento da China e nossa mídia pouca informa sobre o desenvolvimento da China. Crescer é um instrumento para o desenvolvimento, numa economia de mercado. Confundimos a parte pelo todo. O crescimento não se esgota em si mesmo.

      Crescimento tem relação com aumento de consumo.

      Desenvolvimento se relaciona com melhor qualidade de vida e cidadania.

      Consumidor para ser alimentado precisa receber informações de consumo. Temos uma área de propaganda premiada mundialmente e com verbas de dar inveja. No Brasil, a propaganda é tão avassaladora que transforma nossos desejos em necessidades. Precisamos de um celular novo a cada seis meses. Compramos e nem pensamos. Portanto, compramos por compulsão, isto é, consumir nesta perspectiva, é uma atitude passiva . Sem esquecer também que o consumo de forma estabanada destrói o ambiente e a vida saudável das futuras gerações.        

        Para se tornar cidadão uma outra posição é necessária, é preciso estar permanentemente participando. Muito se repete que para a cidadania é necessário o acesso à educação em todos os níveis e de boa qualidade(inclusive políticas que objetivem o fim do analfabetismo), a plenitude da integralidade e universalização dos serviços de saúde, junto com um meio ambiente saudável e preservado, habitação com condições dignas para todos, transporte público confortável, farto, eficiente e preponderante sobre o transporte particular, canais e instrumentos de participação e controle social estabelecidos, uma mídia diversa e democrática, são todos parte de uma sociedade na qual a cidadania é uma atitude ativa. Lembrando da esquecida Justiça, que deve cumprir seus ritos igualmente para todos, independentemente da classe social. Cidadania é sempre ativa, como descreve este panorama no seu livro('Cidadania Ativa') a profa. Maria Victoria Benevides e precisa dos canais de participação abertos e desbloqueados.

     Resumindo: o consumidor tem o individualismo em suas ações, acaba sendo passivo na medida em que não escolhe o que consome, não distingue a real necessidade do objeto do desejo, busca o bem estar individual, fica comprometido só com sua vida ou da sua família.

     O cidadão age sempre coletivamente, precisa estar atento e ativo na participação dos processos comunitários, é fruto do desenvolvimento, busca o bem estar social e coletivo e está sempre comprometido com os direitos humanos de todos.

      Em suma, o Brasil cresceu através de esforços de toda uma população que vem tendo maior possibilidade de consumo mas, para estabelermos uma sociedade de cidadãos necessitamos ir muito além do dinheiro no bolso, precisamos de desenvolvimento.      

      A política pública necessária é o PAD, isto é, Plano de Aceleração do Desenvolvimento. Este é o foco que justifica a necessidade da educação cidadã, que buscamos na Escola de Governo de São Paulo.

 

Comentar

Após moderação, todos os comentários serão publicados, exceto aqueles que:
1. Ferirem o princípio da dignidade da pessoa humana;
2. Servirem como instrumento de injúria, calúnia e/ou difamação;
3. Praticarem sarcasmo.

Código de segurança
Atualizar

Importante

Sugestões para o Site
Compartilhe suas sugestões para melhorarmos o site da Escola de Governo.

Campanhas