Um sorriso de uma senhora de mais de 90 anos cheia de vida e alegria na Casa da Terceira Idade Tereza Burgolin, em Ermelino Mattarazzo, abriu a minha visita a zona leste de São Paulo neste sábado com as turmas dos cursos de políticas públicas, cidadania e formação de governantes da Escola de Governo.
Foi uma incursão de mais de dez horas na realidade da região que tem mais de 4 milhões de habitantes, ou seja, 40% da população de São Paulo mas que não costuma ser representada desta maneira nos meios de comunicação, no orçamento da cidade, e nos projetos de educação, saúde, habitação e segurança da cidade e do Estado. O esquecimento da elite, porém, não desanima os líderes comunitários da região. Lutas são travadas diariamente para conseguir melhorias e muitas coisas estão sendo feitas com ajuda mínima do Estado.
Padre Ticão é um ícone na Zona Leste. Em meia hora de conversa ele nos apresentou os principais problemas e soluções. “Eu costumo dizer: não adianta só chegar com o problema, me traga também três soluções”. Entre as necessidades mais gritantes estão: falta de creches; déficit habitacional e moradias irregulares; a questão dos bolivianos; a violência contra os idosos; a falta de vagas nos hospitais. A corrupção e o desvio de recursos foram apontados pelo padre Ticão como os principais obstáculos para vencer a desigualdade. “O dinheiro não chega na ponta. Se a população for rastrear o dinheiro ficará horrorizada”.
Depois de ter uma ideia do que está acontecendo na região e conversar com os velhinhos felizes da Casa da Terceira Idade, que oferece atividades culturais e oficinas para mais de 150 idosos, seguimos viagem.
Fomos para uma reunião de um grupo de articuladores comuntários que fazem parte da Plataforma dos Centros Urbanos. O projeto criado pela Unicef estimula a comunidade a apontar os problemas e as soluções para seus bairros. Os articuladores estavam divididos em grupos de discussão. Entre eles: educação; moradia; jovens e doenças sexualmente transmissíveis. Tive a sorte de entrar no grupo da educação e conhecer alguém especial. A diretora de uma escola estadual Abigail.
“Não podemos permitir a homogeneização da educação. Ao receberem cartilhas prontas, os professores não se sentem mais produtores de conhecimento e apenas reproduzem o que está nos livros. Essa universalização pretende calar, controlar e atender apenas as avaliações externas. E os professores precisam responder a isso para ganhar aumentos. É preciso ficar bem na fita mesmo que a educação esteja indo para o caminho errado”, desabafou a professora empenhada em melhorar a qualidade do ensino. Foi um encontro riquíssimo. Pessoas da comunidade pensando e se articulando para resolver os problemas.
O respiro da visita foi no almoço na Casa da Terceira Idade Tereza Burgolin. Arroz, feijão, salada de legumes, maionese, lombo. Comida feita com amor. Foi importante forrar o estômago porque a próxima parada não foi fácil.
Descemos no Jardim Pantanal, região que ficou 72 dias debaixo d’água em 2010. O sol escaldante realçava o cheiro forte de esgoto. Em meio aos escombros de casas destruídas pela prefeitura e a pobreza das que ainda resistem, não dá para não perceber a beleza do rio e das árvores que ficam a sua beira.
Com lágrimas nos olhos, o líder local Cristovão de Oliveira nos apresentou a vila que fica às margens do Rio Tietê e que abriga mais de 3.200 famílias que terão que deixar suas casas para a construção do Parque Linear do Tietê. Mais um problema de moradia irregular que nos deixa sem saber o que pensar. O lugar não é ideal para morar, mas foi ali que muitas famílias construíram suas vidas.
“Ninguém quer morar num lugar como esse, mas todos querem um lugar para morar. Não somos contra o Parque Linear do Tietê, mas queremos um projeto habitacional para essas famílias e até agora a prefeitura e o estado não nos apresentaram nada. O aluguel social de R$300 não resolve a questão. Até quando vão pagar este aluguel? E depois?”, argumentava Cristovão cercado de crianças.
Sem esperanças de uma resolução para a moradia irregular, seguimos para a nossa última parada do dia. E foi lá no Jardim Gianetti que retomamos a sensação de que nem tudo está perdido.
Conhecemos um projeto habitacional de moradia popular da Associação Pastoral da Moradia feito através de mutirão. Todos os moradores colocaram a mão na massa. Compraram um terreno, conseguiram financiamento público e levantaram um condomínio digno de classe média. Prédios bonitos, limpos e com área de lazer. São 170 apartamentos de 40 metros quadrados que custaram R$46.500 e que serão pagos em parcelas de R$150 por mês e sem juros.
“A única forma de conseguir moradia digna hoje é colocar a mão na massa”, dizia Dalcides Neto, coordenador do movimento que tem mais de cinco mil pessoas na fila de espera por um destes apartamentos. Aos poucos e com muitas dificuldades e pouca ajuda dos governo, o movimento segue a sua luta.
Impressionados com o sucesso do conjunto habitacional entramos no ônibus e deixamos a Zona Leste. Uma visitante africana de Moçambique que nos acompanhava definiu a viagem: “não podemos deixar de acreditar”.











Comentários
Um Abraço - Maria do Carmo
Nós, temos muito que a prender sobre a nossa cidade e é desta forma que vamos conseguir mudanças.
Sou morador da Z.L e vejo descasos de ambas as partes (governantes e moradores), precisamos ter mais sensibilidade em perceber e encarar a cidade como um bem coletivo, que deve ser respeitado, fiscalizado e cuidado por todos cidadãos, visto que qualquer irregularidade nos nossos direitos e deveres, por mais pequenos que sejam, afetará a todos que nela vivem.
Abraço a todos- Vanderson S Assis
Obrigado- Vanderson.
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